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Rico por um dia

O Ricardo é um cara simples e de origem humilde, e com muito sacrifício tenta concluir a faculdade. Conseguiu seu primeiro emprego: um estágio na área de marketing em uma agência de propaganda bem longe de sua casa. A agência promoverá o lançamento de uma coleção de joias de uma grande grife a ser realizado no salão de eventos de um hotel cinco estrelas. O Ricardo está muito animado, pois além de acompanhar seu chefe, o Paulo, pela primeira vez na vida, irá a um local tão chique. O hotel é um desbunde. Chique é pouco para defini-lo. No salão, gente bonita e elegante circulando e conversando educadamente. O Ricardo está vislumbrado. — Paulo, quanta mulher bonita! E essa mesa de queijos é maior que a lojinha de frios lá do bairro! A de vinho se parece com uma adega! E a de pães e patês, deixa a padoca lá da vila no chinelo! — Pega leve e com educação, Ricardo. Não me faça passar vergonha! — alertou o chefe. O Ricardo está impressionado com tanta comida boa, mas não tira os olhos das moça...

Fora de lugar

O futebol é maravilhoso! Os dribles. Os lances. As cabeçadas. O gol. Como é bonito driblar um, dois, três jogadores e marcar um belo gol que leva a torcida ao delírio! Que belo espetáculo! Como eu invejava meus amigos bons de bola. Eu, além de ter medo da bola, sempre tropeçava nela, levando a galera a cair na risada. Eu não gostava de futebol. Sabia apreciar e valorizar, mas era muito perna de pau. O que eu gostava mesmo era de música. Adorava ouvir rock e colecionava discos de vinil, os tais bolachões, alguns com capas magníficas. Os meninos se dividiam em três grupos: os que gostavam de futebol, os que gostavam de skate e os que não gostavam de nada disso e de quase nada também, como eu. Todo adolescente sonha em brilhar, ser notado, ser popular. É natural da idade. Eu, o garoto magrelinho e tímido, entrei numa de sair da invisibilidade e impressionar, principalmente, as meninas, que só tinham olhos para os bons em futebol e skate. E eu estava fora dos dois grupos. Meu amigo Mauro e...

Neve

Em nosso querido planetinha azul, acontecem inúmeros fenômenos naturais que intrigaram muitos pensadores no passado, mas nossa boa ciência já tratou de explicar todos, portanto, não há mais mistérios. Um desses fenômenos é a evaporação da água. Um mundão de partículas de água flutuando no ar, levadas daqui para lá, e de lá para cá, pela ação do vento. Elas são muito sociais, gostam de andar juntas e formam nuvens branquinhas, cinzas e pretas. Essa última é a perigosa, sempre aparece acompanhada de trovões, relâmpagos, raios e muita chuva. Isso, aqui nos trópicos, lá em cima do hemisfério norte e aqui embaixo do hemisfério sul, esse vapor de água encontra um frio de lascar taquara e se cristaliza formando a tal de neve, caindo em forma de chuva. Nas fotos, parece muito bonito o cenário todo branquinho, como se a paz reinasse por todos os cantos e os turistas estivessem felizes. Um amigo meu que é russo me disse que neve só é boa para estes turistas felizes. Segundo palavras dele: Viver ...

Do pó à lama

— Mãe, água é a melhor coisa do mundo! Severino nasceu no início de uma seca que castigou a região por quase sete anos. Pouco tempo após sair da primeira infância, viu pela primeira vez a tão falada água cair do céu. Ajoelhou-se no chão úmido com seus pais e irmãos, agradecendo a Deus pela dádiva. Logo depois, saiu correndo com os braços abertos como se quisesse abraçar todos aqueles pingos de água. A água encharcou o chão, brotando verde aqui e ali, e seu pai plantou as sementes do alimento dos próximos meses. Toda a alegria do pequeno Severino durou pouco. A seca voltou e se estendeu por mais alguns anos e ele viu novamente o solo esturricar e a criação morrer de sede. Invejava aqueles que moravam no sul, onde a água é abundante. Fechava os olhos e dava asas à imaginação quando ouvia o cancioneiro cantar “O sertão vai virar mar”*. Também invejou Noé quando conheceu a história do dilúvio. — Mãe, água é o símbolo da vida! Cresceu vendo sua mãe e suas duas irmãs caminharem, diariamente,...